Vestibular filtro estratificador social.

A bola da vez na mídia nacional é unificação do vestibular visando menos decoreba, mais raciocínio e um processo seletivo socialmente mais justo.

Quem lida com educação nesse país, sabe perfeitamente que esses objetivos são recorrentes e nunca alcançados simplesmente porque: Primeiro, advogam um processo seletivo mais justo para ingresso nas Universidades Federais, sem levar em conta as bases desiguais sob as quais nossa sociedade esta edificada.

A desigualdade é a base de tudo. (gênero, cor, crença, trabalho manual e intelectual dentre outros). Essas diferenças estruturais nas relações humanas serão justas, se o cimento que sustenta a estrutura desse modelo econômico for implodido. O vestibular não foi criado para esse fim, não possui TNT suficiente para essa tarefa, nem são esses seus objetivos.
Segundo, a exigência de mais raciocínio e menos decoreba é tarefa da escola e não do vestibular. Esse discurso inverte as funções escolares, reduz os problemas seletivos ás habilidades e capacidades intelectuais, esconde o estatuto histórico dos alunos e não discute a finalidade precípua de filtro estratificador social do vestibular.

Terceiro, o fato de o vestibular selecionar, em tese, os melhores, mais capazes e estudiosos alunos, é secundário se levarmos em consideração o descompasso entre as exigências das disciplinas, na maioria dos cursos de cursos de graduação, e os conhecimentos adquiridos no ensino médio.

São dois níveis distintos, independentes e até conflitantes. O domínio dos saberes básicos (ensino fundamental e médio) é suficiente para o aluno, reprovado ou aprovado no vestibular, acompanhar com aproveitamento, qualquer curso de nossas universidades, seja pública ou privada.

O número de alunos matriculados em segunda opção, que trocam de área, oriundos do supletivo, que obtiveram nota próxima de zero e ingressaram em faculdades privadas são exemplos claros desse descompasso. Apesar disso, a maioria deles são profissionais respeitados no mercado de trabalho.

Dificilmente um paciente, antes de ser operado por um médico, fazer uma prótese, constituir um advogado analisa o curriculum vitae do profissional. É o fetiche do diploma igualando todos os profissionais.

Quarto, a idéia de que o vestibular unificado vai definir o currículo do ensino médio é no mínimo equivocada, porque as provas devem derivar do currículo aplicado e não o contrário. A bem da verdade, a maioria dos
professores que elabora as provas do vestibular, por razões diversas, é do terceiro grau. Muitos deles tomam por base os programas sugeridos e não a realidade do ensino médio.

Diante das desigualdades e injustiças sociais, das poucas vagas disponíveis nas Universidades públicas e da forte pressão de milhões de alunos para ingresso no ensino superior, querem agora, igualar os desiguais com medidas superficiais e inócuas. As mudanças propostas não tocam, por exemplo, na indústria do ensino médio privado, nos cursinhos pré-vestibulares que movimentam milhões de reais em nome dos percentuais de aprovação nos vestibulares, ou ainda nas vultosas somas em dinheiro que entram nos cofres das Universidades Federais em todo o país, frutos das taxas pagas pelos candidatos, sem contar os gastos das famílias com viagens, hospedagem e alimentação.

No universo da desigualdade toda justiça é também uma grande injustiça. Por isso, a maneira mais justa de corrigir essas desigualdades seria oportunizar a todos os interessados, o direito de acesso e permanência ás Universidades públicas. Como isso não é possível, por enquanto, a probabilidade estatística que dá aos participantes chances iguais, é a forma mais coerente e justa de acesso ao ensino superior gratuito. O sorteio das vagas para ingresso nas Universidades públicas, ainda é o método mais barato, rápido e justo, sem necessidade do uso das controversas cotas raciais ou sociais.

Entretanto, sabemos que essa proposta é totalmente desinteressante para os defensores do mérito, da indústria do ensino e da concepção de que não devemos tratar os desiguais como iguais, principalmente num mundo onde alguns (os seus) são mais iguais que os outros.

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