Um dia de lições para o futebol brasileiro

Ontem, 08 de julho de 2014, dia da disputa de semifinal da Copa do Mundo 2014 entre Brasil e Alemanha, certamente entrará para a história do futebol brasileiro. No entanto, esse dia infelizmente não será lembrado como o dia que obtivemos a classificação para voltar a disputar, 64 anos depois, uma partida de final de Copa do Mundo em solo brasileiro. Para nosso – e digo nosso, pois sei que milhares de brasileiros sentem o mesmo- desgosto, esse dia será lembrado como aquele em que sofremos a pior derrota na história da seleção brasileira em Copas do Mundo.

Entretanto, se serve de consolo, esse dia também será marcado pelas inúmeras lições que tivemos. Vamos a elas!

A primeira lição que pudemos ter desta partida foi de ordem organizacional. Não nos preparamos para essa Copa como deveríamos. Se para construção dos estádios e obras de mobilidade urbana que foram realizadas para o Mundial tivemos o atraso (além do superfaturamento) como marca registrada, para a construção da equipe que disputaria uma Copa do Mundo, no meu entendimento, também. A comissão técnica conseguiu, enfim, encontrar os melhores jogadores e o sistema de jogo ideal a um ano da Copa, na Copa das Confederações, ocasião em que, aliás, realizamos uma bela competição e nos sagramos campões em uma grande partida contra a atual campeã mundial, Espanha. A seleção alemã, que ontem nos derrotou pelos incríveis 7×1 mantem a sua base há seis anos. Por sua vez, na seleção brasileira, os únicos jogadores que estavam entre os titulares da última Copa mantidos em 2014 foram o goleiro Júlio Cesar, os laterais Daniel Alves e Maicon, o meio campista Ramires e o zagueiro Tiago Silva. Destes, três são considerados titulares na equipe de hoje. Ainda assim, como se não bastassem os cinco anos a mais de vantagem em relação a nós, dos 11 atletas que iniciaram a partida grande parte joga em clubes alemães e, dentre eles, a maioria (12 atletas especificamente) defende ou o Bayern Munich ou o Borussia Dortmund. Com isso, como de se esperar, os atletas se conhecem suficientemente bem, dentro e fora de campo, estando significativamente mais entrosados.

A segunda lição veio para a comissão técnica. Métodos de treinamento a parte (isso é tema para outra conversa), a lista dos atletas convocados foi equivocada. Menos em relação aos nomes, mas mais em relação às posições que cada jogador convocado ocupa no campo. Por exemplo, para o meio campo, foram convocados cinco volantes (sendo que somente um deles exerce a função de primeiro volante) e somente dois meias ofensivos. Fernandinho, Maicon, Hulk e Bernard atuaram ontem em funções diferentes das que atuam em seus clubes. Maicon, justamente por conta do esquema com três atacantes abertos também teve, assim como Daniel Alves (principalmente ele), seu desempenho comprometido visto que sua principal característica, o apoio ao ataque e chegada à linha de fundo, ficou prejudicada com a presença de outro atleta ocupando aquele espaço. Oscar exerceu uma função tática importante, mas também teve de abdicar de suas características para isso. Grande parte dos atletas que estavam entre os convocados mereceram a convocação e também os selecionaria. As exceções ficam, em minha opinião, para Henrique, Jô e Bernard. Fred e Hulk poderiam até ser convocados, mas certamente não teriam a titularidade que lhes foi garantida. De fato, diante dos convocados, certamente o ataque, apesar de termos um dos melhores jogadores do mundo como referência, Neymar, é o nosso pior setor da equipe e foi pensando nele que Luis Felipe Scolari montou seu esquema tático. Neste jogo especificamente, diante das ausências significativas (Neymar e Tiago Silva) e das características do adversário, a escalação do trio ofensivo foi um equívoco determinante para a derrota.

A terceira, e última, lição se refere ao ponto que mais me atrai e não por acaso é objeto de estudo desde minha iniciação científica na graduação, passando pelo mestrado e chegando ao doutorado: o preparo psicológico da equipe e a presença de um psicólogo do esporte como integrante da comissão técnica. Dos desafios que teríamos nessa Copa do Mundo o maior deles seria, no meu entendimento, de ordem psicológica. Como é lidar com a expectativa de 200 milhões de brasileiros? Como é lidar com a responsabilidade (ou obrigação como o próprio treinador enunciou) de ganhar uma Copa do Mundo em nosso país? Estávamos preparados para a vitória? Ou seja, qual consequência, de ordem psicológica, da conquista da Copa das Confederações um ano antes da Copa do Mundo? De que forma essa vitória foi elaborada? E para a derrota, fomos preparados? Como controlar nossas emoções diante de uma situação desfavorável (como tomar um segundo gol ainda nos minutos iniciais ou pior, tomar quatro gols seguidos em menos de dez minutos)? Como sair de uma situação de desequilíbrio emocional em poucos instantes? Estávamos motivados para as partidas?Nitidamente sim, mas será que não em nível superior ao ideal?

Todas as emoções (ansiedade, satisfação, estresse, motivação, medo, alegria, raiva, coragem etc.) estão presentes em situações que envolvem uma partida importante e decisiva de futebol, mas o fundamental é achar o equilíbrio. E neste jogo diante dos Alemães, se nos faltou equilíbrio tático, nos faltou muito mais equilíbrio emocional. Afinal, foi num momento de puro e explícito descontrole psicológico que jogamos fora nossas possibilidades de classificação ao tomarmos tantos gols em tão pouco tempo. Falaram muito do choro desproporcional no momento do hino ou da recusa do nosso capitão em bater os pênaltis… Isso é um problema? Não seria se tais emoções, motivação e medo principalmente, estivessem controladas e ao que me parece, não estavam.

Com isso quero dizer que já passou da hora da psicologia esportiva ser levada a sério. Ah, podem me dizer que havia uma psicóloga do esporte na seleção brasileira! Havia e não havia. Regina Brandão, opções teóricas a parte, é sim uma das maiores referências em psicologia do esporte no Brasil, mas tanto eu, quanto ela, e certamente alguns dos leitores deste texto (tenho minhas dúvidas se integrantes da CBF e comissão técnica também) sabem que ela não pôde desempenhar o trabalho necessário e ideal ficando muito longe disso. Enquanto o psicólogo do esporte permanecer em segundo plano, não fazendo parte da comissão técnica permanente e sendo chamado somente para apagar incêndios ou resolver problemas pontuais como que num toque de mágica, continuaremos a sucumbir em situações de extrema pressão como as que vivenciamos ontem.

Diante da série de lições que pudemos levar deste confronto, cabe agora refletirmos sobre o que fazer diante delas. Aprender com elas, adquirir conhecimento e superar nossas limitações? Ou permanecer por mais alguns anos achando que estamos acima dos demais, justificando nosso comportamento na crença que ainda somos o país do futebol, que ainda somos os detentores do futebol arte e que com isso passaremos por cima de tudo e de todos?

Fica a lição!

Rafael Moreno Castellani

Sobre Rafael Moreno Castellani

É mestre em Educação Física (2010) pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) e, atualmente, doutorando em Psicologia Social pela Universidade de São Paulo (USP). Volta suas inquietações, estudos e pesquisas à Educação Física Escolar, à Psicologia do Esporte e ao Futebol.

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