Quem não é chorão vira vilão
Publicado em 1.09.2008.
Por Sávio Assis de Oliveira
Jornal do Comércio – Recife/PE – 04/09/2008
Maurício Rands
O desempenho do Brasil na Olimpíada foi desproporcional às expectativas infladas pela cobertura ufanista da nossa mídia. Assistimos o endeusamento do super-herói esportivo, como se o País não devesse se orgulhar de outros heróis do quotidiano: o gari que devolve o dinheiro encontrado no lixo, o empreendedor brasileiro que conquista mercados no mundo, o trabalhador disciplinado que acorda às 5h da manhã para pegar dois ônibus e chegar no horário do expediente, o cientista que inova e se destaca na academia mundial.
O treinador da nossa equipe de judô, a mesma que levou a Pequim dois dos atuais campeões do mundo, fez o seu diagnóstico: “Os três bronzes são pouco, falta uma melhor preparação psicológica dos nossos atletas.” Não terá sido o fator emocional a pesar nos resultados de Jade Barbosa (7º), Diego Hipólito (6º), Diane dos Santos (6º), das duplas de vôlei e outros? A derrota para a França na Copa de 2002, quando Ronaldo amarelou, não se inscreve na mesma lista? Até César Cielo, que havia dado declarações equilibradas valorizando o estudo e a disciplina, deixou-se contagiar pelo clima nacional e foi depois visto desabando no “chororô” que já virou nossa marca. O contraste com a atitude de outras nações ficou estampado na espontaneidade do Jamaicano Usain Bolt que, antes mesmo de cruzar a linha e obter o ouro nos 100 metros rasos, já extravasava sua alegria sem maiores dramaticidades.
Os especialistas podem encontrar muitas razões para a atitude brasileira. Talvez auto-estima baixa e auto-complacência. Para um leigo como o autor destas linhas, que também sofre do mesmo desvio, a questão precisa ser debatida para que possamos fazer do Brasil um país vencedor, valorizando o mérito, a disciplina, o esforço e a competência nas diversas áreas: no cotidiano, na atividade empreendedora, na inovação tecnológica, assim como nos esportes. Não parece certo que o enaltecimento da falta de equilíbrio emocional possa nos conduzir a este objetivo.
É claro que a manifestação das emoções nos reafirma como seres humanos, frágeis e fortes ao mesmo tempo. Uma dose de espontaneidade e emotividade, própria dos povos tropicais e dos latinos, é componente da nossa cultura. Este nosso temperamento tem produzido grandes clássicos na literatura, na poesia, na música e nas artes em geral. Mas talvez um pouco mais de equilíbrio emocional nos ajude a construir um país que funcione com mais eficiência em todas as áreas, das quais o esporte é só um exemplo amplificado pela ampla cobertura de mídia.
Até quando vamos continuar cobrando das pessoas a exibição das suas tristezas e alegrias como se tudo fosse um espetáculo? Até quando vamos dizer do chorão copioso mais próximo, que ele é humano, é gente como a gente? Será que um pouco de auto-controle e equilíbrio não são atitudes também humanas? Não vamos esquecer da mãe da menina Isabela que foi tratada por alguns como uma vilã porque não se derramou em lágrimas diante das câmaras. Nem da outra Carolina, cujo advogado apressou-se a mandá-la chorar diante das mesmas câmaras para fazê-la mais simpática ao grande público.
Maurício Rands é deputado federal (PT).
Sávio Assis de Oliveira
Sávio Assis de Oliveira possui graduação em Educação Física (1990) , especialização em Pedagogia do Esporte (1994) e mestrado em Educação (1999), todos Universidade Federal de Pernambuco. Atualmente cursa o doutorado em Edcuação na mesma universidadade. É sócio-efetivo do Colégio Brasileiro de Ciências do Esporte (CBCE) e Técnico Judiciário da Tribunal Regional do Trabalho 6ª Região. Tem experiência na área de Educação Física , com ênfase em Prática Pedagógica, atuando principalmente nos seguintes temas: Educação, Políticas Públicas, Esporte, Esporte na escola, Educação Física e Escola. 1 comentário
comentou em 2/10/2008, às 11:22
Muito interessante o texto. Eu só discordo a respeito da comparação entre a reação indicidual de Cesar Cielo e Usain Bolt após suas vitórias.
O Jamaicano apontava o número 1 para as cameras, sabendo que não tem adversários no momento, já Cielo foi um azarão, e viu a recompensa depois de tanto esforço.
Uma coisa é você saber desde o começo do ano que você vai ganhar uma bicicleta no Natal,outra coisa é você acordar e encontrar a bicicleta com uma fita vermelha e o seu nome.