Observatório Escreve

Políticos e Fraudas

Atos secretos do Senado, farra das passagens e a corrupção generalizada envolvendo políticos brasileiros têm deixado estarrecido o mais otimista dos cidadãos. Não somente pela corrupção em si, que ronda as relações humanas desde as épocas mais remotas, mas pelo sentimento de impunidade, desrespeito e mal estar diante dos mirabolantes esquemas de desvio de recursos públicos e enriquecimento ilícito.

Mas, o que causa esse mal estar? Os políticos ou as expectativas irreais neles depositadas? Seguramente as expectativas, principalmente sobre a honestidade, a moral, a ética e a probidade. Esquecem que toda expectativa é uma preparação para o mal estar.

As pessoas têm expectativas de conduta ética e valores morais que nem elas mesmas acreditam. Sonham, por exemplo, que os novos políticos serão honestos e justos, não repetirão os erros do passado e cumprirão as promessas de campanha. Porém, de real, além da retórica, pouco sabem sobre eles. O candidato, taxado de corrupto, para se eleger, corrompeu e foi corrompido pelo eleitor. As vozes que se levantam ferozmente contra a corrupção, esquecem que o voto ainda é trocado por sapatos, camisas, bolas, pintura de casa, sacos de cimento e promessa de emprego. A única diferença entre o eleitor e o eleito é o preço do voto, porque ambos são corruptos e corruptores. É tempo do voto facultativo.

Leibniz (1646 -1716) dizia que “este é o melhor de todos os mundos possíveis”. Voltaire (1694-1778) parodiou de forma selvagem estas idéias afirmando que este mundo não é bom, nem muito menos o melhor dos mundos, e o único meio de fazê-lo suportável, visto que o homem não nasceu para repouso, é trabalhar. Mas, alguns homens inverteram esta lógica e optaram pela política como repouso e, a corrupção, a sonegação e a apropriação do alheio, como trabalho.

Sócrates (470 -399 a.C.) tinha a expectativa de fazer com que os atenienses tivessem consciência de suas imperfeições, injustiças e corrupções. Foi condenado à morte pelo estado corrupto. Ele preferiu morrer a fugir ou abandonar suas expectativas.

Indecisos entre o real e o imaginário muitos preferem sacrificar a democracia aos políticos dizendo: nunca mais voto; todos os políticos são iguais. Eça de Queiroz nos ensina, com razão, que políticos e fraldas devem ser trocados de tempos em tempos pelo mesmo motivo e não a democracia.

Essas decepções são frutos das expectativas irrealizadas. O eleitor como objeto do processo, confia seus ideais aos políticos esperando que acabem com a violência, corrupção, injustiças e melhorem a saúde e a educação. Sonhos! Autofagia não faz parte dos palanques.

É preciso ser sujeito da história, reduzir as expectativas irreais e acabar com o “vazio moral e ético” que tem dominado essas idéias. Os políticos precisam se apresentar como não são, para na realidade serem o que verdadeiramente são homens históricos e condicionados.

Resta pedir desculpas aos que morreram pela causa, continuar lutando, não perder a esperança e nunca desistir, porque cada voz silenciada, cada desistência significa avanço para os corruptos, e aliciadores que há muito perderam a dignidade humana.

Apolônio Abadio do Carmo

Professor /UFU

Apolônio Abadio do Carmo
Membro Pesquisador; Doutor em Educação [Unicamp]; Docente da Universidade Federal de Uberlândia - UFU. 1 comentário


Comentários

  1. Clodoaldo Carcalho Mota

    comentou em 12/03/2010, às 16:33

    Infelizmente, somos a minoria, mas, como mesmo disse, não podemos nunca calar, porque se calarmos estamos sendo coniventes. Temos sim, que nunca esmorecer e falar o que sentimos é o correto, porque o que falta é a EDUCAÇÃO.
    O povo precisa separar o joio do trigo, mas, esse é hoje um trabalho de formiguinha.

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