O que pode o esporte?

A leitura do artigo de Ana Moser e Walter Feldman (publicado na sessão Opinião da Folha de São Paulo em 18/02/2010) demonstra como a corrente hegemônica que atua no chamado “terceiro setor” tem aumentado sua força e seu espaço de ação.

Basta uma passagem do artigo para ilustrar a veemência dos atores do “terceiro setor” quando o assunto é deslegitimar o Estado: “Queremos unir esporte e educação para cumprir uma tarefa impensável para o Estado: universalizar o atendimento e a oferta de esporte, lazer, recreação, educação, saúde e cultura”.
Ao apontar a universalização de direitos sociais como algo “impensável” para o Estado, os autores demonstram claramente o que Carlos Montaño aponta (no livro Terceiro Setor e questão social) como a transformação de uma questão político-econômica-ideológica numa questão meramente técnico-operativa, segundo o autor: “a discussão é levada para a comparação entre instituição estatal – tratada como burocrática, ineficiente, corrupta, rígida e em crise fiscal – e organizações do “terceiro setor” – tidas como dinâmicas, democráticas, populares, flexíveis, atendendo às particularidades regionais e categoriais”.

A afirmação dos autores perde qualquer força quando pensamos em como seria possível a UMA Organização Social que lida com o ESPORTE, universalizar além do direito ao esporte, lazer e recreação, os direitos à saúde, educação e cultura? Como ignorar, por exemplo, que a busca pela universalização do direito à saúde inclua a luta pelo fortalecimento do SUS? Ou será que tal instituição não reconhece a relevância de um sistema de saúde reconhecido como exemplar (apesar de todos os problemas que apresenta) em todo mundo? Como falar em universalização da educação sem se falar da escola? A proposta será a de que simplesmente se ignore que milhões de crianças e jovens diariamente freqüentam esse espaço durante mais de uma década de suas vidas?

A questão fica ainda mais complexa quando observamos que tal instituição realiza parcerias com o Estado e divulga em seu sítio na internet no link “como ajudar” a lei da OSCIP, segundo a qual, entidades privadas podem deduzir de seus impostos uma porcentagem a ser direcionada para OSCIPs. Ora, torna-se claro que a entidade busca como principal fonte de renda recursos públicos, afinal de contas dinheiro de renúncia fiscal é dinheiro público revestido ideologicamente de “responsabilidade social”…

Impensável é acreditar no canto da sereia (como aponta Montaño) do “terceiro setor”, impensável é abandonar as lutas pela manutenção e ampliação dos direitos sociais, impensável é crer que ações localizadas, financiadas pela Fundação Telefônica (um dos parceiros “investidores” do Instituto Esporte & Educação), por exemplo, podem criar “indivíduos autônomos, críticos, conscientes e, sobretudo, independentes”. Isto porque, qual seria o interesse do Grupo Telefônica, continuando o mesmo exemplo, em financiar uma entidade se esta conscientizasse os jovens da sua condição de trabalhadores (as) explorados (as) nas centrais de call center? Impensável é continuar defendendo que se ensine por meio do esporte o respeito às regras de um jogo que dia a dia produz a desigualdade e a desumanização.

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Sobre Juliane Correia

Juliane Correia é licenciada e mestranda em Educação Física pela FEF/Unicamp e professora da rede estadual de educação do Estado de São Paulo.

3 pensou em “O que pode o esporte?

  1. Como é dificil neste sub mundo, encontrar pessoas com uma consciência clara e mostrar a todos que nós temos que tomar uma atitude como cidadão, e começar a relamente mostrar a todos que estamos na mão de uma quadrilha organizada. Como costumo dizer; se politica fosse uma coisa séria, voce não era obrigado a votar. O politico com dois mandatos se aposenta, o cidadão trabalha 40 a 50 anos e recebe o atestado de probreza. E ASSIM VAI ?
    Fico satisfeito que tem gente pesando com seriedade, nesse sub mundo chamado Brasil.

  2. O Projeto de Lei (PL) 5.186/05, que irá alterar a Lei 9.615/98 (“Lei Pelé”). No artigo 90-E, a ser incluido, permitirá que ex-atletas possam atuar como Monitores de Esporte e este fato irá influenciar diretamente no mercado de trabalho do educador físico.

    Para evitar sua aprovação no Senado, é necessária uma campanha de repúdio ao atual texto do PL 5.186/05, e será necessário a sua participação no Manifesto de repudio contra esta Lei.

    PARTICIPE!

    Ajude a divulgar o manifesto e a lutar pelo direito da população para ser assistida e orientada pelo Profissional de Educação Física.

    Divulgue o site

    http://www.confef.org.br/extra/manifesto/

  3. Fico contente que no esporte, lazer, rcreação sejam desenvolvidos por profissionais da Educação Física,manter ética repeito aos profissionais principalmente o publíco,verdadeiros construtores dessa nação ( povo), seja tambem ministrado por profissionais da área e não ongs, OS. de ex-atletas explorando estagiários.

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