O lazer e a formação para a vida pública

Acredita-se que o lazer, se pensado e materializado de acordo com uma concepção crítica e ampla, isto é, entendido para além das funções compensatórias atreladas ao mundo do trabalho, em especial, o modo de produção capitalista, possa ser fonte de valorização da esfera pública e construção da cidadania, pensando-se em um projeto de emancipação humana.
Entende-se por esfera pública, conforme Gomes (2006), a luta conduzida pela cidadania, esfera esta que é permeada pela decisão e ação política. Neste sentido, a construção da esfera pública deve permear as concepções de educação, cidadania e democracia.
É necessário pensar o papel da esfera pública na construção societária, tendo-se o lazer como tempo/espaço articulador e mediador neste processo, visto como local de debate, circulação de idéias, informações, contraposições argumentativas e conflitos.
Atualmente, é necessário reconhecer que o Estado, fincado em um modelo capitalista, permeado por políticas neoliberais, caracterizado pela mercantilização destes espaços e negação da cidadania, rejeita explicitamente a vida pública.
Neste sentido, espaços e equipamentos de lazer, os quais deveriam ser concebidos enquanto direito social, acabam por permear uma lógica extremamente perversa de privatização, na qual produzem uma segregação espacial e acabam por minar o caráter do espaço público e das interações públicas entre as classes (CALDEIRA, 2003).
Conforme a autora, tais espaços, os quais podem ser chamados de enclaves fortificados, compreendidos enquanto formas de diferenciação social, desvalorizam o que é público e aberto na cidade, e passam a ser concebidos como símbolos de status e oferecendo uma nova maneira de estabelecer fronteiras entre grupos sociais.
Assim, clubes, shopping center, cinemas, teatros, estádios esportivos, museus, mostras de artes, festas, bares, entre tantos outros espaços e equipamentos de lazer, passam a se tornar lócus de valorização da vida privada, permeados por valores individualistas, bem como, atrelados à características como: isolamento, segurança, homogeneidade social (CALDEIRA, 2003).
Uma das grandes questões a serem pensadas, problematizadas e resolvidas, é a de que existe uma impossibilidade de se construir uma vida pública e democrática em tais enclaves fortificados, expressão esta cunhada por Caldeira (2003). Tais espaços, nos dizeres da autora, “não criam uma vida pública regulada por princípios democráticos, responsabilidade pública e civilidade” (p. 277). Ainda segundo ela, “a vida dentro dos universos privados só contribui para enfraquecer ainda mais suas noções de responsabilidade pública” (p. 279).
Diante destas argumentações, poder-se-ia pensar que o Estado deveria agir em prol da efetivação da esfera pública, favorecendo e oportunizando a todos, independentemente de classes sociais, etnias, sexo, idade, entre outros, estarem na mesma condição de direitos e, neste caso específico, vivenciando o mesmo lazer, de maneira a experimentar novas (re)construções culturais favorecendo a formação humana.
Não obstante, o que se evidencia, atualmente, é que ocorre um deslocamento de capital para esferas outrora organizadas conforme a lógica pública, porém, intensificando a dimensão estatal mercantil própria do Estado moderno (SILVA JÚNIOR; SGUISSARDI, 2005).
Segundo os autores, o governo brasileiro, em especial no período FHC, fortemente colocou em prática uma política a qual permeava a lógica de submissão e atendimento aos interesses do capital financeiro internacional, culminando com traços acentuados de:
•Adoção de um paradigma de corporações mundiais;
•Desnacionalização da economia;
•Mercado de trabalho terceirizado e precarizado;
•Enfraquecimento das instituições políticas;
•Desaparecimento dos direitos sociais;
•Transferência dos deveres e responsabilidades do Estado para a sociedade civil.
Como conseqüência, em decorrência da universalização do capital e os avanços dos processos de privatização e mercantilização, a esfera pública restringiu-se e desregulamentou-se, possibilitando a expansão da esfera privada mediante a própria iniciativa do Estado, ancorado em teorias políticas de concepção liberal (SILVA JÚNIOR; SGUISSARDI, 2005).
Posto isto, fica claro que existe uma contradição entre o público e o privado, em qualquer esfera de atividade humana, visto que todas estas atividades, no campo da sociedade e do Estado, transitam por um campo de forças (leia-se interesses) as quais submetem a esfera pública à dimensão privada, sempre a serviço do capital.
Conforme Silva Júnior e Sguissardi (2005, p. 16):
As políticas públicas passam, no Brasil e no exterior, por um processo de mercantilização ancorado na privatização/ mercantilização do espaço público e sob o impacto de teorias gerenciais próprias das empresas capitalistas imersas na suposta autonomia ou real heteronomia do mercado.
Em meio a isto, observa-se que a formação para a vida pública, em situações igualitárias de direito, promovida por instituições as quais elevem a construção da vida e da esfera pública, para além do caráter estatal, mercantil ou privado, fica comprometida. É evidente que não existe a materialização de espaços públicos cuja construção da cidadania e da democracia sejam favorecidas.
Os estudos acerca das relações entre lazer e sociedade, conforme retratado em Castellani Filho (2006), não perdendo de vista o contexto que o mesmo se insere, na lógica da sociedade de consumo, levam a colocá-lo e defini-lo como “tempo e espaço de fruição de interesses da indústria do entretenimento, o qual fez por restringir o acesso ao patrimônio cultural historicamente construído pela humanidade, somente àqueles de condições socioeconômicas possibilitadoras de sua aquisição” (p. 125).
Nesta lógica, percebe-se que as vivências do lazer ficam restritas à concepção da organização social do sistema como um todo, permitindo afirmar que determinadas práticas são acessíveis analogicamente a determinadas camadas da população. Apoiando esta discussão, vale transcrever as palavras de Mascarenhas (2003, p. 135):
[…] Ocorre que, como um direito social, pouco interessa se 15% de nossos jovens nunca tiveram a oportunidade de ir ao cinema, 46% ao teatro, 29% a um show de música brasileira, 86% a um concerto de música clássica, 52% ao museu, 72% a uma exposição fotográfica, 77% a um espetáculo de dança moderna, 88% a um espetáculo de ballet, 22% ao circo, 49% a um jogo de futebol no estádio e 40% à biblioteca.
Quando se pensa em oportunidades para todos, fica claro que não é esse o quadro que se encontra atualmente neste país. Na ciranda da mercantilização, na qual se transforma, incessantemente, cada vez mais áreas à lógica do dinheiro e do consumo, mais se vê o agravamento do quadro social vigente, e as disparidades da população seguem seus rumos.
De acordo com Mascarenhas (2003), essa aglomeração não nega uma determinada padronização, e esta é justamente ajustada às segmentações sociais, identificando os indivíduos e a coletividade cada vez mais pelo consumo e pela renda, conforme seus hábitos e estilos de vida, preservando as diferenças e desigualdades dos níveis de vida.
Assim como as distinções entre faixa etária e gênero, localização geográfica, etnias, raças e credos religiosos, a gradação de “classe”, segundo Mascarenhas (2003), ou seja, o poder aquisitivo, passa também a constituir unidades de grupamento, devidamente relacionado com os padrões de consumo. Voltando os olhares para o âmbito do lazer, nessa perspectiva, a construção de redes de sociabilidade depende, como qualquer outro setor do tecido social existente, de padrões economicamente determinados, constituindo-se um verdadeiro nicho de mercado, e resultando em privação dos direitos para um amplo setor da sociedade.
Sob essa ótica, pensando-se um uma sociedade como a brasileira, caracterizada pela sua infra-estrutura social de subdesenvolvimento, encontra-se uma divisão de classes sociais, às quais os indivíduos não têm a chance de escolher ou optar por suas condições socioeconômicas.
Portanto, há de se pensar em qual viés estão se discutindo as relações entre vida pública, formação humana e lazer. Faz-se necessário partilhar objetivos, metas e compromissos, e que a esfera das discussões e ações se amplie para uma camada mais representativa da sociedade de maneira democrática e participativa, de forma a possibilitar realmente o direito a todos aos seus bens de serviço e usufruto.
REFERÊNCIAS
CALDEIRA, T. Cidade de muros: crime, segregação e cidadania em São Paulo. São Paulo: EDUSP, 2003.
CASTELLANI FILHO, L. Gestão municipal e política de lazer. In: ISAYAMA, H.; LINHALES, M. A. (Org.). Sobre lazer e política: maneiras de ver, maneiras de fazer. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2006.
GOMES, W. Apontamentos sobre o conceito de esfera pública política. In: MAIA, R.; CASTRO, M. C. P. S. (Orgs.) Mídia, esfera pública e identidades coletivas. Belo Horizonte: EDUFMG, 2005.
MASCARENHAS, F. Lazer como prática de liberdade. Goiânia: UFG, 2003.
MASCARENHAS, F. O pedaço sitiado: cidade, cultura e lazer em tempos de globalização. Revista Brasileira de Ciências do Esporte, Campinas: Autores Associados, v. 24, n. 3, maio/2003, p. 121-143.
SILVA JÚNIOR, J. R.; SGUISSARDI, V. A nova lei de educação superior: fortalecimento do setor público e regulação do privado mercantil ou continuidade da privatização e mercantilização do público? Revista Brasileira de Educação, n. 29, maio/agosto 2005, p. 5-27.

Tiago Nicola Lavoura
Drndo em Educação. Linha de pesquisa: Política, Trabalho e Formação Humana.
Faculdade de Educação. Universidade Federal de Minas Gerais.

Texto referente ao trabalho final da disciplina Repensando educação, cidadania e vida pública, ministrada pelo Prof. Dr. Rogério Campos, do curso de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal de Minas Gerais – FAE/UFMG.

Sobre Juliane Correia

Juliane Correia é licenciada e mestranda em Educação Física pela FEF/Unicamp e professora da rede estadual de educação do Estado de São Paulo.

Um comentário sobre “O lazer e a formação para a vida pública

  1. Boa tarde, estes artigos são interessantes para mim, pois gosto muito de trabalhar com o lazer, sou professor de educação física e trabalho principalmente os esportes em formas de atividades recreativas principalmente no ensino médio.
    Desde já agradeço.
    Atenciosamente,
    Pedro Mauro Pancieri CREFE/CONFEF Nº 3544/G-ES

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