O atual formato de vestibular no Brasil precisa ser modificado? A racionalidade da unificação

Folha de São Paulo – Tendências/Debates

As principais universidades requeriam que seus futuros alunos passassem por um exame de seleção. Por demanda de seus dirigentes e devido à dificuldade dos estudantes para se preparar para diferentes provas, criou-se uma comissão para realizar um único exame de admissão. Esse fato ocorreu nos EUA, no ano de 1900, quando surgiu o College Entrance Examination Board.
Hoje, praticamente todos os países desenvolvidos têm um exame nacional que serve para as universidades realizarem a seleção de alunos. A prática de exames de admissão descentralizados é peculiaridade brasileira. Exames descentralizados são ineficientes por limitar o número de instituições a que um estudante pode concorrer. Hoje é difícil pleitear uma vaga numa universidade distante. Na presença de um exame centralizado, o estudante poderia realizar a prova em sua cidade e se candidatar para qualquer universidade do país. Mas a dificuldade logística para os estudantes não é o único in conveniente dos vestibulares.
O objetivo das boas universidades é selecionar os candidatos mais promissores. Assim, elas precisam encontrar indicadores que as auxiliem na tarefa de prever o desempenho acadêmico dos candidatos. Os exames de seleção têm essa função, mas acabam por interferir no currículo do ensino médio. É muito difícil para dirigentes educacionais adotar um currículo que, embora considerem o mais apropriado, reduza a probabilidade de seus estudantes de ingressar numa boa universidade.
No Brasil, os vestibulares convergiram para um formato padrão: baseiam-se no acúmulo de conteúdos, exigindo dos estudantes um conhecimento enciclopédico e com ênfase exagerada na memorização. As escolas acabam por se preocupar mais em cobrir os conteúdos exigidos pelos vestibulares do que em aprofundar e consolidar os conhecimentos e habilidades mais fundamentais. O resultado é tornar a escola desinteressante para muitos estudantes. Como os vesti bulares chegaram a esse formato não é fácil explicar, mas, uma vez nele, pode ser difícil sair. Elaboradores dos vestibulares têm pouco incentivo para alterá-los de forma isolada. Se os estudantes se preparam para um tipo de prova, a universidade que adota outro tipo pode perder candidatos.
Isso ajuda a explicar por que os vestibulares não mudam, apesar de as críticas serem generalizadas. A proposta do MEC é a de haver um exame nacional para seleção de candidatos às universidades. O Enem já cumpre, ao menos em parte, essa finalidade. Ele é usado por diversas instituições de ensino superior como critério de seleção, parcial ou exclusivo, e é obrigatório para se inscrever no ProUni (Programa Universidade para Todos).
O Enem possui a vantagem de não exigir excesso de memorização e se concentrar em aspectos fundamentais, como a construção de argumentações consistentes e solução de problemas. Mas, ainda que busque aferir habilidades importa ntes, o Enem acaba por se relacionar menos diretamente com o saber escolar. O desempenho dos participantes nesse tipo de prova dificulta discriminar bons alunos de alunos excelentes, o que pode ser necessário para a seleção nos cursos de alta demanda. Tal característica faz com que muitas universidades resistam a utilizar o Enem como critério exclusivo de seleção. Por não abordar conteúdos de disciplinas específicas, o Enem também falha em organizar o currículo do ensino médio.
A proposta é modificar o Enem para incluir mais conteúdo escolar e possibilitar a separação de alunos com diversos níveis de proficiência. O exame seria algo entre o atual Enem e os vestibulares, a exemplo do Exame Nacional para Certificação de Competências de Jovens e Adultos (Encceja), mas com questões que permitam discriminar bons estudantes de estudantes ainda mais preparados.
Isso ajudaria a orientar o currículo do ensino médio e possibilitaria um critério ma is racional de seleção de candidatos para as universidades. A ideia, ainda, é caminhar para um sistema de seleção mais parecido com o do resto do mundo. Nesse caso específico, nossa peculiaridade se aproxima de uma anomalia.

REYNALDO FERNANDES, professor titular do Departamento de Economia da USP em Ribeirão Preto, é presidente do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), autarquia vinculada ao Ministério da Educação.

Sobre Juliane Correia

Juliane Correia é licenciada e mestranda em Educação Física pela FEF/Unicamp e professora da rede estadual de educação do Estado de São Paulo.

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