Maria Lenk: No contrapelo da história

A mídia esportiva brasileira deu destaque, desde a madrugada do dia 17 deste mês de abril, ao falecimento da renomada nadadora brasileira Maria Lenk. Seus feitos esportivos foram relembrados em tons emocionados e suas façanhas nas piscinas do mundo cantadas em verso e prosa. Nesse toar, nosso estimado jornalista Juca Kfouri chegou a dizer que ela seria “dessas figuras imortais que, ao mergulhar pela última vez, não morrem. Apenas saem nadando por aí, em vigorosas braçadas, para virar lenda”.

Pois é assim que se constroem as lendas… Bertholt Brecht já nos incitava a pensar sobre a mitificação histórica de pessoas quando, em um poema intitulado “Perguntas de um Trabalhador que lê”, assinalava: “… O jovem Alexandre conquistou a Índia. Sozinho? César bateu os gauleses. Não levava sequer um cozinheiro? Felipe da Espanha chorou, quando sua armada naufragou. Ninguém mais chorou? Frederico II venceu a Guerra dos sete anos. Quem venceu além dele?…”.

Certamente não é nas páginas da história oficial que vamos encontrar sinais de uma outra faceta da esportista Maria Lenk. Em meados da década de 1980 tive a oportunidade, por conta de meus estudos de mestrado, de entrevistá-la, como também a outros professores seus contemporâneos da época da Escola Nacional de Educação Física da Universidade do Brasil, posteriormente Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Os seus depoimentos encontram-se no livro “Educação Física no Brasil: A história que não se conta”, hoje em sua 13ª edição. Trago aqui algumas passagens deles que, embora pequenos, já auxiliam os que lidam com o conceito de verdade histórica a ratificarem a compreensão acerca da impossibilidade da sua existência sobre a forma absoluta e sim sob o manto da objetividade, quase sempre traduzida por aqueles que nas relações de poder, estabelecidas num determinado momento histórico, fizeram prevalecer seus olhares da história em detrimento de outros possíveis.

Comecemos com algumas passagens de seu próprio depoimento. Em um trecho expressa sua compreensão sobre a Educação Física (EF) no ensino superior e o movimento estudantil no conturbado ano de 1968:

“… Bom… Eu posso dizer de vivência própria, porque exatamente nesse período eu estava na direção da Escola e, por conseqüinte, dentro do Conselho Universitário. Estava em ligação direta com o governo, e ele, através da Divisão de Educação Física, convocou todas as escolas de EF para que se estudasse um novo currículo para seus cursos e também nomeou uma comissão – da qual fiz parte – para dar forma a um documento que visava difundir a EF e torná-la obrigatória em todos os níveis de escolaridade, quer dizer, alcançava inclusive a Universidade. E na UFRJ foi exatamente eu quem implantou essa lei. Então eu conheço a fundo todos os senões desse assunto e posso dizer com respeito a este, político, que quando eu assumi em 68, a preocupação do governo era a de acabar com as células – assim chamavam os centros comunistas – que estavam mais ou menos velados em forma de diretórios acadêmicos, e que não se preocupavam com o ensino, mas sim com assuntos políticos, revolucionários ou contra-revolucionários, vamos chamar assim…”.

E continuava, mais adiante:

“… Acontecia ainda, uma outra coisa interessante. Na época, nós da EF estávamos defendendo a tese de que viesse a existir, na Universidade, a Ginástica obrigatória, quer dizer, o preparo físico e a preocupação com a saúde de todos os estudantes, mas também que se continuasse a cultivar o esporte universitário. Então havia a CBDU, que existe até hoje, composta por associações de desporto de competição, existentes nas universidades como departamentos dos diretórios acadêmicos, departamentos esses que não tinham nada com política. Então ocorria uma coisa interessante, porque você também vai perceber que quem está ligado ao esporte raramente se interessa por política. Eu mesma, se você perguntar se sou a favor da ditadura ou da democracia, se sou a favor de regime x, y ou z, eu responderei que não me interesso pela forma política, eu me interesso é em saber o que eles já conseguiram fazer em função da EF e do Desporto. Então, o que nós queríamos era preservar os departamentos esportivos, que eles continuassem a fazer os seus esportes de competição, que a CBDU continuasse a existir. E ela, CBDU, contou, naquela época, com substancial apoio militar. Foram realizados grandes JUB’s, bem organizados porque os militares deram uma mãozinha aos estudantes na organização dos Jogos, dando a eles aquele cunho patriótico, com desfiles, etc, dentro dos moldes olímpicos. Mas muitas vezes as universidades, inclusive a Escola de EF, eram obrigadas, por questões políticas, a fecharem os Centros Acadêmicos, mas não a fechar a seção esportiva, essa continuava…”.

E acerca de sua percepção da presença de fatores político-ideológicos nos episódios por ela vividos e aqui rememorados, assim se expressou:

“… Não assim acentuados… É verdade que naquela fase, no início da Revolução, procurava-se os líderes comunistas, não é, e muitos foram encontrados no meio dos professores, inclusive de EF, os quais foram, inclusive, cassados. Na EF até que foi muito pouco, sabe. Havia um que realmente assumia uma liderança, mas ele, por natureza, era realmente assim muito exuberante, queria se projetar, muito mais do que por convicção política. Infelizmente ele teve que arcar com as conseqüências. Mas de uma maneira geral, os professores de EF não se envolvem em política. Porque também tem o seguinte, isso eu até tive ocasião de dizer numa reunião que houve recentemente no Conselho Nacional de Desporto: Esporte e EF, principalmente a EF Escolar, que se preocupa com a eugenia da raça, são comuns a qualquer regime político, isso tanto faz ser um regime forte como um regime democrático, acho que a preocupação existe e nós vamos mesmo ao fundo da questão que é a EF em si. O que esse indivíduo faz, por exemplo, dentro da política, é assunto completamente independente…”.

Já aquele professor exuberante, por ela mencionado (tratava-se do professor Alberto La Torre de Faria), assim se reportou àquele momento histórico (sobre o AI 5):

“… Ah! Esse episódio foi muito interessante! (…) Quando o ISEB fechou, eu fui transferido para o Ministério da Educação e aproveitado na Divisão de Ensino Superior, onde realizava inspeções e fiscalizações nas universidades. Minha presença em Itu tinha a ver com a intenção de se fundar, naquela cidade, uma Faculdade de Direito. O Diretor da Faculdade era um ex-deputado federal, casado com a filha do Plínio Salgado. Loureiro Júnior era seu nome (…) Já tinha acabado de realizar o meu trabalho e aceito um convite do Diretor para jantar. Nós estávamos então, tomando uns aperitivos e aguardando o início da ‘Hora do Brasil’ (…) A certa altura, ouvimos referência ao AI-5: ‘Foram incursos no Ato Institucional nº 5, os senhores: Alberto La Torre de Faria…’ Foi um espanto, inclusive para mim. Eu, delegado do ministério da Educação, organizando uma Faculdade de Direito em Itu e sendo cassado em Brasília! (…) o Professor Loureiro Junior, muito espirituoso, disse assim: ‘…Eu não sabia que o senhor era um homem tão importante, o primeiro da lista…’. Lembro-me de ter-lhe dito não ser pela importância, mas sim pelo fato de meu nome iniciar-se pela letra ‘A’. Ai todo mundo caiu na gargalhada…”.

E continua, sério…:

“…Aquele período desbaratou a vida de todo mundo. Eu acho que foi um golpe, um período de autoritarismo… Eu mesmo tive minha casa vasculhada várias vezes pela polícia. Tive minha biblioteca saqueada…”

E mais adiante se reporta à Maria Lenk:

“…Da universidade fui aposentado antes do AI-5 (…) Mesmo assim fui convidado para dar algumas aulas, até que surgiu um fato lastimável. Foi assim: O Dr. Waldemar Areno (1º presidente da Federação Brasileira de Medicina Esportiva) me convidou pra continuar a dar aula, apesar de já estar aposentado. Aulas sobre Esporte. E eu não ganhava um tostão (…) mas eu as dava pelo amor à casa onde estive tantos anos e que ajudei a fundar. Um belo dia, eu vou entrando e notei o porteiro, Riolando, uma pessoa muito simpática, meio constrangido… Eu fui para a sala de aula. Entrei. Os médicos – era um curso de medicina esportiva – estavam lá, sentados. Antes mesmo que eu começasse a aula, entrou na sala um funcionário e me disse: ‘Professor, o senhor está proibido de dar aula na Escola. A dona Maria Lenk já se entendeu com a universidade e não quer que o senhor dê aula aqui, porque o senhor é subversivo’. Me dirigi, então, aos médicos, explicando-lhes que a aula havia sido suspensa. E fui pra casa…”.

Fica o registro. Não me vem à mente outra maneira de terminar senão pegando de empréstimo de Carlos Drummond de Andrade uns pedaços de seu poema Verdade:

“A porta da verdade estava aberta,
Mas só deixava passar
Meia pessoa de cada vez.
Assim não era possível atingir toda a verdade.
(…)

Chegou-se a discutir qual a metade mais bela.
Nenhuma das duas era totalmente bela.
E carecia optar. Cada um optou conforme
Seu capricho, sua ilusão, sua utopia”.

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