Malabarismos verbais não maquiam o balanço negativo da participação do Brasil nas Olimpíadas de Pequim

O Globo – 26/8/2008

Malabarismos verbais não maquiam o balanço negativo da participação do Brasil nas Olimpíadas de Pequim. Com parcas três medalhas de ouro, contra cinco em Atenas, e o tombo – da 16ªposição obtida em 2004 na Grécia para a 23ª colocação deste ano – na tabela final de classificação, a delegação brasileira trouxe da China um preocupante retrocesso.

Superar essa pífia participação na competição esportiva mais importante do planeta pressupõe autocrítica em vez de digressão – e, como desejável decorrência, transformar a derrota em base para a superação dos equívocos cometidos exige uma reavaliação generalizada do que foi feito de errado durante a longa fase de preparação. Querer avaliar como positivo o desempenho do país nos Jogos, como o fez o presidente do Comitê Olímpico Brasileiro, Carlos Nuzman, equivale a tentar achar numa caixa de fósforos a vara que impediu a atleta Fabiana Murer de lutar para encorpar a minguada coleção de medalhas obtidas na China. Cumpre, na verdade, estudar o que deve ser feito
desde já, para que, daqui a quatro anos, em Londres, o choro de torcedores e atletas brasileiros seja pela emoção da conquista, e não de lamento por saltos, braçadas, chutes e cortadas de menos.

Uma lição a tirar do naufrágio em Pequim vem dos países que obtiveram bom desempenho nos Jogos, como os EUA, a Inglaterra e nações asiáticas – à parte a China, cuja ditadura não a recomenda como paradigma. São países que apostam nas escolas como celeiro de atletas, e fazem da educação uma aliada imprescindível na descoberta e na formação de levas de campeões.

Outra lição: aplicar com mais transparência os recursos oficiais destinados ao esporte. Não é demais lembrar que a delegação brasileira viajou para Pequim turbinada, nos últimos quatro anos, pela generosa verba da Lei Agnelo/Piva. Tanto que não saiu barato cada medalha. A discussão sobre a necessidade de aumentar a dotação, sugerida pelo COB, é posterior; antes, trata-se de estabelecer um plano criterioso para Londres. Essa é uma providência essencial para que a crônica esportiva do país não seja enodoada, por exemplo, com casos como o do judoca Eduardo Santos – que, por falta de dinheiro, teve de esperar uma década para fazer os exames que lhe permitiram mudar de faixa às vésperas da competição. O Brasil ainda não é uma potência esportiva – mas potencialmente é um celeiro de campeões. Transformar essa virtualidade em realidade exige mais seriedade, abnegação e visão do que até aqui demonstraram os responsáveis por nossos projetos olímpicos.

Sobre Juliane Correia

Juliane Correia é licenciada e mestranda em Educação Física pela FEF/Unicamp e professora da rede estadual de educação do Estado de São Paulo.

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