Esporte e educação física escolar: ir além do que nos impõe o Rio 2016

Estamos num momento em que a Copa do Mundo organizada pela FIFA, e as Olimpíadas organizadas pelo COI, são a expressão maior do capital no mundo esportivo. No intervalo dessas competições temos os diversos campeonatos mundiais, continentais e nacionais que dão conta da reprodução do capital. Sabemos como se põe o metabolismo social do capital. Nada escapa do seu contraditório metabolismo. Os grandes monopólios agem por dentro e por fora do Estado, o que o Mészáros (2002) chamou de força extraparlamentar par excellence, pela ideologia (no seu sentido ampliado, desde visão de mundo até falseamento teórico do real), pela cultura (no seu sentido amplo, desde a relação de cultivo entre o homem e a natureza até as reproduções estéticas, filosóficas e religiosas, e por que não esportivas), pela política (via parlamento e extraparlamento ou sociedade civil de forma a torná-la uma questão técnico-administrativa), pela economia (transformando-a num fetiche em que a noção ontológica de economizar se perde) e pela educação (no seu sentido amplo e não só escolar) que se interrelaciona dialeticamente com outros vetores.


Aliás, todos eles possuem uma autonomia relativa, mas não são estanques. Se partirmos desses aspectos, não podemos tratar a questão do Rio 2016, somada à da educação física escolar, tão somente como muitos querem nos fazer acreditar, como a necessidade na formação de atletas. Na verdade se propõe a criação de disposições esportivas que incidam profundamente na formação humana. Querem, para usar um termo caro à Saviani, criar uma segunda natureza (habitus). Bracht (1986 e 1997) já nos advertia sobre a formação burguesa através do esporte. O problema atual é que o esporte está realmente subsumido ao capital. Isso extrapola o próprio âmbito esportivo, bastando observarmos a quantidade de mercadorias de condomínios, carros à alimentação com o adjetivo esportivo ou fazendo menção ao seu universo.

É evidente que a preocupação com o esporte na escola, a formação de atletas, etc, aparecem em tempos olímpicos, na forma de urgência, sobretudo no que diz respeito à performance dos atletas. Todavia, estas preocupações são epiteliais, uma vez que toda a formação através do esporte continua se dando de uma forma e com um conteúdo que reforçam o esporte de alto rendimento, mas formam poucos atletas nessa perspectiva. É evidente que há propostas e práticas contra-hegemônicas, porém, ainda são incipientes, assistemáticas e muitas vezes messiânicas.

Em São Paulo, é possível afirmarmos que os jogos escolares não pararam de ocorrer. Por exemplo: na rede pública estadual paulista ocorre há décadas campeonatos escolares. Os professores podem formar turmas de treinamento e inscrever os seus talentos nos jogos escolares. Na rede publica municipal paulistana o mesmo ocorre. Só não havia até 2008, as turmas de treinamento, e ignoro se havia no passado. Agora, com um projeto municipal recém aprovado que circulou pelas diversas listas virtuais como uma conquista é possível no contraturno escolar a formação de turmas de treinamento. Outro caso é o do SESI, que em 1991 com ajuda da Unicamp, criou o Programa SESI Atleta do Futuro, que foi remodelado em 2002 com ajuda da Unesp, e que não teve tanta força até este ano (agora se chama PAF Programa Atleta do Futuro), devido a militância dos educadores desta entidade por uma educação física comprometida com a formação humana. Se folhearmos os seus documentos parametrais é possível percebermos o impacto dos debates da década de oitenta. Todavia, neste ano tem se dado toda uma ofensiva esportivista. A educação física esta saindo do âmbito da educação e indo para o do esporte, ao ponto dos professores terem que abandonar as perspectivas postas para educação física pela educação, e passar agora a se preocupar com a detecção de talentos e a prática constante das já clássicas modalidades esportivas.

No que diz respeito ao esporte fora da escola, o problema é mais complexo e matizado. A lógica prevalecente é a do alto-rendimento e a da saúde com uma fachada educativa e cidadã, ambas diluídas em vários vetores, que conduzem inevitavelmente ao consumo, e também orientam as políticas sociais. O espectro é largo: desde os cosméticos e alimentos, passando pelas vestimentas, programas televisivos e a indústria da TV paga, moradias, shoppings, literatura e música, até políticas massivas no sentido de buscar num só golpe atingir milhares de pessoas de governos conservadores (e não só; os ditos progressistas tem seguido a mesma lógica) como a virada esportiva, o agita SP, o agita mundo, o dia do desafio, etc.

Há ainda o mal chamado terceiro setor, que refilantropizou a questão social. O esporte é muitas vezes o atrativo. Pratica-o buscando a fugas das ruas, das drogas, da violência, etc, como também, buscando a ascensão social, a fama, a riqueza, enfim, uma vida sem miséria e violência. É o remédio universal!

Enfim, a agenda daqueles que não negam o esporte enquanto prática social, que vislumbram através de suas contradições construírem patamares que possibilitem se não a sua superação, pelo menos a sua prática e contemplação numa perspectiva que eduque sem velar as suas antinomias, deve não se deixar levar pelas imposições da agenda olímpica. É preciso enfrentá-la, mas permanentemente, e não só no seu tempo.

Um comentário sobre “Esporte e educação física escolar: ir além do que nos impõe o Rio 2016

  1. trabalho com educação física infantil e gostaria de saber se voces possuem algum material sobre o tema para crianças dessa faixa etária.
    Desde já agradeço

    Mônica

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