As Noções de Empreendedorismo em Educação Física e uma das inúmeras discussões: Por que e para quem?

Marcio Antonio Tralci Filho

Durante últimas aulas [em março e abril de 2008], tratou-se do tema “empreendedorismo” e tentou-se integrar esse conceito à realidade da Educação Física no Brasil, país no qual, a priori, atuaremos profissionalmente. Tomamos como fundamento, para tanto, as leituras do capítulo inicial de “Empreendedorismo – uma visão do processo” de Baron e Shane (2007).

Começando com uma discutível afirmação do senador americano Hupert Humphrey em 19661, os autores descrevem uma história pessoal e particular, a de um deles nesse caso, para corroborar suas idéias, artifício muito utilizado na maioria dos textos sobre o tema. Creio que se busca com isso um fato concreto que nos mostre como a façanha de ser “empreendedor” é possível da forma como é conceituada.

Continua com a idéia de processo e o fato da transformação do imaginado em “realidade” como fundamentos para se compreender o “empreendedorismo”. Em seguida, há a definição considerada mais acurada para o termo: ele, “como uma área de negócios, busca entender, como surgem as oportunidades para criar algo novo; como são descobertas ou criadas por indivíduos específicos que, a seguir, usam meios diversos para explorar ou desenvolver essas coisas novas (…)”.2

É nesse momento que para mim começam-se os questionamentos. Quem seriam esses “indivíduos específicos”? Qualquer um de nós brasileiros cuja percepção para o novo e sua posterior comercialização fosse aguçada? E quais seriam esses “meios diversos” para lograr o sucesso? Seriam parametrizados e mediados por questões éticas, jurídicas, econômicas, sociais (por mais ampla que seja a denominação) ou religiosas? Ou todas? Ou nenhuma delas? Sendo assim, se as definições não são nada esclarecedoras, a “exploração das coisas novas” envolveria tão somente os meios de produção ou também incluiria o trabalho daqueles que não seriam empreendedores por excelência? Em outras palavras, não devemos nos aprofundar em questões como essas e discuti-las a fim de evitar o que os próprios autores consideraram “perigoso”: “aceitar qualquer afirmação como verdadeira sem conhecer algo a respeito de sua origem”?3

Muito se disse no capítulo que o “empreendedorismo” tem raízes importantes na economia, ciências do comportamento e sociologia. É, então, nesta última que me inspirarei agora.

Um dos conceitos muitos discutidos nessa área das ciências humanas é o da ideologia. Segundo o sociólogo José de Souza Martins:

“Como o modo de produzir se altera em conseqüência dos resultados acumulados do trabalho, da atividade humana, as relações sociais necessárias para levar a efeito a produção também se alteram e, do mesmo modo, as concepções que justificam e interpretam essas relações. Isso não quer dizer que tais concepções penetrem na verdade da realidade social. Muito ao contrário, são concepções que encobrem a verdade, que interpretam destorcidamente a realidade, como se fossem, porém, verdadeiras. São, por isso, concepções ideológicas e não científicas. São aceitas e compartilhadas porque parecem verdadeiras, isso porque não sendo a verdade fazem parte da verdade”.4

São nessas e em outras passagens que inspiro-me diante de afirmações, digamos, um tanto quanto ideológicas como: “algumas pessoas têm mais energia, estão mais dispostas a correr riscos e têm mais autoconfiança (auto-eficácia) do que outras; as que possuem níveis mais altos nessas dimensões têm maior probabilidade de escolher o papel empreendedor”. 5Ou ainda, o que considero mais grave, uma vez que chega a se utilizar de argumentos baseados na fisiologia hormonal para explicar um comportamento tão complexo e de maneira tão simplista, funcional e determinista, o que não está nem próximo da fisiologia e muito menos das ciências humanas e sociais, mas sim de um senso comum pretensamente “científico”:

“Evidências relacionadas ao papel dos fatores de nível individual na escolha de ser um empreendedor estão presentes em uma recente e fascinante pesquisa realizada por White, Thornhill e Hampson. Esses pesquisadores compararam o nível de testosterona dos alunos de MBA que já tinham iniciado novos empreendimentos ao de alunos que ainda não tinham. Os resultados indicaram que os alunos que haviam escolhido se tornar empreendedores anteriormente tinham níveis mais elevados desse hormônio masculino! Outras evidências sugeriram que essa diferença tem como origem uma tendência maior para o risco entre os empreendedores”.6

Ainda sobre a ideologia. Dizer que grandes empresas estimulam o empreendedorismo interno entre seus funcionários é, a meu ver, um eufemismo para uma cobrança e um requisito a mais para selecionar admissões e/ou demissões. Talvez até apareça um grande “empreendedor interno”, mas não seria muito razoável na dita “cultura empresarial” estimular um funcionário a pensar algo inovador e comercializá-lo sem manter a patente desse produto sob os domínios da empresa. Nesse ponto de vista, a participação nos lucros não seria nada mais do que a compra da patente do que foi inventado ou descoberto pelo funcionário pela empresa, mais para o seu próprio uso-fruto e menos para o funcionário/empreendedor.

Busco, nesse sentido, uma conexão com a Educação Física. O que seria um empreendedor nessa área? O que deveríamos reconhecer como oportunidade? O que poderíamos considerar comercializável? Lidamos com o corpo, quem sabe um sistema bioenergético-dialético-transcendental7, ou ainda capaz de sentir, pensar e agir8. Imagino que temos outras questões, não digo mais importantes, mas que ainda carecem mais de um olhar crítico e menos de visões reprodutoras da compra e venda de e para corpos, e não me refiro ao tráfico internacional de órgãos ou pessoas. Há quem diga que a diferença é pouco nítida.9

Enfim, pelo menos até o momento, ainda não pude realizar uma efetiva integração entre Educação Física e empreendedorismo nem responder às questões proposta no título desse texto relacionando as duas áreas. O primeiro motivo é a dúvida que reside no fato de que ser empreendedor pode nos afasta dos problemas próprios da Educação Física, discutidos nos âmbitos acadêmicos e profissionais; o segundo é a carente fundamentação teórica que, na minha concepção, se apresentou ao longo do texto sugerido que, apesar de citar a contribuição da Economia, Ciências do comportamento e Sociologia, pouco citou autores ou referenciais teórico-metodológicos oriundos dessas áreas do conhecimento humano. Incluir o “empreendedorismo” precitadamente e pretensamente como um ramo da Educação Física pode, quem sabe, contribuir, à primeira vista, para o “empobrecimento” da nossa área.

Referências Bibliográficas

BARON, R. A. & SHANE, S. Empreendedorismo: uma visão do processo. São Paulo: Thomson Pioneira, 2007.

FORACCHI, M.M. e MARTINS, J. de S. Sociologia e Sociedade: Leituras de introdução à Sociologia. Rio de Janeiro: Livros Técnicos e Científicos, 1992

GONÇALVES, M. A. S.. Sentir, pensar e agir: Corporeidade e educação. Campinas: Papirus, 1997.

MEDINA, J.P.S. O brasileiro e o seu corpo: educação e política do corpo. Campinas: Papirus, 1990.

PUZO, Mario. O Poderoso Chefão. Rio de Janeiro: BestBolso, 2007.

* Texto elaborado durante a disciplina “Dimensões Econômicas e Administrativas da Educação Física” da graduação em Educação Física da Universidade de São Paulo.

† Graduando em Educação Física pela Escola de Educação Física e Esporte da USP.

“Boa parte do progresso norte-americano [sic] é produto do indivíduo que teve uma idéia, foi atrás dela, modelou-a, ateve-se firmemente a ela durante todas as adversidades e então produziu essa idéia, vendendo-a e lucrando com ela”

2 (BARON e SHANE, 2007, p. 6).

3 (Ibidem, p. 5)

4 (FORACCHI e MARTINS, 1998, pp. 4-5)

5 (BARON e SHANE, 2007, p. 16)

6 (Ibidem, p. 17, grifo meu)

7 Segundo o professor João Paulo Subirá Medina em seu “O Brasileiro e seu corpo”, expondo a desconsideração da Educação Física brasileira da época em relação a milhões de pessoas que não usufruem da cultura, das práticas corporais e dos conhecimentos correlatos que as cercam.

8 Título do livro da filósofa e educadora Maria Augusta Salin Gonçalves, o qual disserta sobre as possibilidades da Educação Física na emancipação e autonomia do homem.

9 Na epígrafe de seu livro “The Godfather”, Mario Puzo cita Balzac: “Por trás de toda grande fortuna há um crime”. Sou avesso às generalizações, no entanto, há de se refletir as conseqüências de uma ação empreendedora ou as implicações de querer buscar o primeiro milhão [refiro-me a uma pergunta feita pelo docente da disciplina logo nas primeiras aulas: ‘Como você faria para ganhar o seu primeiro milhão?’]. Aliás, não seria o personagem Vito Andolini “Corleone”, o imigrante siciliano que criou e tornou-se o chefe da maior organização mafiosa nova-iorquina entre os anos de 1940 e 1960, um empreendedor de sucesso?

4 comentários sobre “As Noções de Empreendedorismo em Educação Física e uma das inúmeras discussões: Por que e para quem?

  1. Olá Observatório do Esporte,
    Queria marcar presença por aqui e demonstrar minha satisfação em ter um texto publicado no sítio.

    Um abraço.

    PS.: As citações não tem link com o texto (faltam os números sobrescritos), talvez o texto fique um pouco mais confuso…

  2. Olá Marcio,
    Li o seu texto e me decepcionei com o final… Não concordo que o empreendedorismo na educação física a encaminhe para o empobrecimento da própria…não sei em que sentido quis dizer, mas acredito que é o que precisamos nessa área que está saturada de profissionais que estão buscando o seu espaço no mercado… É claro que não esqueceremos dos problemas que nos rodeiam, mas sim nos tornaremos mais fortes para combaté-los. Não gosta do termo venda de corpos, realmente soa tráficos de órgãos… Lido com o mercado da educação física da mesma forma que lidaria com o de medicina ou fisioterapia, até mesmo turismo, artes, cenografia, propiciamos saúde, qualidade de vida, cultura, bem-estar, educação, lazer e não mais importante que os outros, estética. Somos profissionais e como todos os profissionais precisamos ser empreendedores.

    Atenciosamente,
    Estefani Rodrigues.

  3. Os empreendedores são pessoas capazes de executar o que é proposto com muita vontade, determinação, competência e uma boa dose de ousadia. Têm desempenhos diferenciados dos profissionais comuns, de modo a se destacarem facilmente em tudo que fazem. Não medem esforços para atingir seus objetivos. São dotadas de várias qualidades que as credenciam para o sucesso e são conscientes de que só se chega lá com muito trabalho e dedicação.

    São pessoas decididas, corajosas, capazes de correr riscos calculados, focadas, persistentes, otimistas, que estão sempre identificando oportunidades e agindo, entre outras características.

  4. Estou Fazendo meu TCC com este Tema, mas estou com problema também na relação entre os dois, envio alguma informação neste fim de ano sobre esta pesquisa, falou!!!

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