Observatório Indica

As boas lições dos Jogos de Pequim

Editorial – Jornal do Brasil – 26/8/2008

A cada quatro anos o mundo obtém aprendizados com a Olimpíada. O nazismo já foi desmoralizado por Jesse Owens, a pior face do terrorismo foi escancarada em Munique-72, a decrepitude da divisão entre blocos ocidente-oriente ficou explícita nos boicotes em 1980 e 1984, entre outras importantes lições que o esporte já deu aos homens.

Domingo encerraram-se os Jogos de Pequim. Sem atentados, sem problemas para os visitantes, com a emoção de façanhas como as do americano Michael Phelps, do jamaicano Usain Bolt, dos determinados donos da casa – recompensados com o maior número de ouro – e das mulheres do Brasil. Mas jogando luz, antes mesmo da competição começar, sobre o sufoco vivido no Tibete e a ausência de compreensão da China com liberdades civis e direitos humanos.

No campo esportivo, a China mostrou com sua performance que é possível ser melhor do que os Estados Unidos quando se traçam metas rígidas, investe-se corretamente e mobiliza-se uma nação em torno de um projeto social onde o esporte é apenas a comissão de frente. Já os americanos produziram os heróis de sempre, e mostraram-se exemplares em algumas modalidades nas quais investem desde a infância – como a natação de Phelps, referência no planeta, e onde César Cielo, um de nossos três
medalhistas de ouro, fez toda a sua preparação para os Jogos.

Na parte intermediária do quadro de medalhas, a performance de Cuba, até pouco tempo disputando na cola das potências esportivas, evidencia o resultado da redução brusca de investimento na base e da falta de referências no esporte – até mesmo o boxe, um dos principais esportes da ilha, “conseguiu”, pela primeira vez, não mandar pugilistas a todas as categorias em disputa.

Tirando Estados Unidos e Canadá, os primos ricos do continente, coube ao Brasil ser o terceiro melhor colocado. Não é mero acaso ou coincidência. Nossa delegação utilizou os primeiros recursos da Lei Piva e da Lei de incentivos fiscais ao esporte. Com os demais patrocínios de empresas estatais, os atletas do Brasil usufruíram de pouco mais de R$ 800 milhões nos últimos quatro anos.

Reportagem publicada neste JB na edição de ontem mostrou que esse valor é menor do que investem os mais vitoriosos países a cada ciclo olímpico. Quatro anos é, de fato, pouco tempo para formar uma geração de campeões. Mas é preocupante que uma delegação de 277 atletas tenha produzido apenas 15 medalhas – são conquista de menos e gente demais. Para 2012, além de investir muito, é preciso passar a investir certo.
Ou na formação de mais brasileiros em condições de vencer, ou na redução de atletas que vão à Olimpíada para fazer turismo.

Para o Brasil, Pequim deixou, portanto, duas lições. A primeira é que a preparação psicológica deve ter o mesmo peso da física e técnica. A lógica é simples: nunca chegamos a tantas finais. Mas não subimos ao pódio na maioria. A diferença entre ouro e bronze é, quase sempre, questão de décimos de segundo. Um piscar de olhos fora de hora dá ou tira a medalha. Ou seja: estamos prontos fisica e tecnicamente para chegar a finais. Não estamos, contudo, tão prontos a controlar a mente para não errar na hora H.

A segunda lição é que comitês não ganham medalhas. Os cerca de US$ 600 milhões que o Comitê Olímpico dos EUA recebem a cada quatro anos são ínfimos perto do que o governo investe em educação e a iniciativa privada gasta com os principais esportes. Nosso governo federal – e as estatais – têm folego para aplicar mais ainda na busca de talentos nas escolas. E em pouco tempo verá resultados mais efetivos – não só no esporte – do que, como agora, entregar a mala de dinheiro a presidentes de confederações, sem fiscalização ou compromisso de contrapartida


Comentários

  1. Egleizer Melo

    comentou em 5/10/2008, às 19:00

    Concordo…esse dinheiro investido no atleta formado é importante, mas se o Brasil almeja algo mais, é necessário que se invista na base do esporte,assim como fazem as potencias, com estrutura decente e profissionais capacitados.
    Eu tive a oportunidade de acompanhar alguns projetos de esporte desenvolvidos por algumas Prefeituras em bairros carentes, onde são escalados estagiários do curso de Educação Física para tal trabalho.
    Tais projetos podem ter o seu valor, pois oferece a atividade esportiva para crianças que não teria condições de pagar por um clube ou escolinha, e os tira das ruas.
    Mas será que um estagiário tem capacitação para enxergar e lapidar um talento do esporte?
    Eu vi uma palestra há alguns anos atras, onde o Professor nos disse que alguns dos grandes atletas brasileiros como Zequinha Barbosa foram descobertos por acaso, e em idade já tardia para um trabalho de base, ou seja, poderiam ter ido muito além se tivessem oportunidades anteriores.

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